Manifesto-Fénix

       É como se centenas e centenas de milhares de lagartas entrassem em combustão súbita imediatamente antes da metamorfose.
     Eu só queria ser uma traça. Uma traça-fénix. Para que sempre queme matassem restasse um pó cinzento no meu lugar e a cara enojada do autor, da qual eu criaria as minhas novas asas, metade em cada lado, uma simetria homicida. Um teste de Rorschach voador. E nunca ser lagarta. Isso! Nunca mais ser lagarta.
     Não que tenha mal ser lagarta, quando temos cinco anos e nos vestem de fatinho para o casamento da prima Lena todos acham engraçado ver um adulto pequenino. É só que quando finalmente és traça já queres poder vestir um fatinho sem todos verem um adulto pequenino. Não que tenha mal ser um adulto pequenino, não que tenha mal… Não que tenha mal ver um adulto pequenino no espelho mas às vezes só queria estar no meu canto a ser traça. Traça-fénix.
     E tu, escola, o que queres ser quando fores traça?
     É que neste momento é como se centenas e centenas de milhares de lagartas entrassem em combustão súbita imediatamente antes da metamorfose. Algumas lá abandonam o casulo já traças-licenciadas, outras demoram-se e outras entram em depressão. Mas nenhuma lagarta nasce prematura. E na escola a maioria arde. 
     Não é possível entrar num casulo e esperar que a lagarta corresponda às expectativas da traça sem primeiro se dar a metamorfose. Ainda assim, imagine-se que a lagarta aceita o esforço de corresponder às expectativas, a lagarta volta preparada, deixa as certezas em casa e ergue-se lentamente, patinhas da frente no ar, posando alta e fingindo-se traça. As células da lagarta começam então a dividir-se em dúvidas, dúvidas, dúvidas, dúvidas, dúvidas, dúvidas, dúvidas, dúvidas, dúvidas. Células e células de dúvidas.
     E medo.
     Quando olhamos uma lagarta a fingir ser traça é fácil esquecer que em fila de espera estão todos os genes de uma traça, avançando lentamente sobre o tapete rolante dos genes, só para no fim, com a rotação aleatória dos turnos e dos astros burocráticos, calhar de ser atendida por uma traça que já perdeu qualquer tipo de noção do que em tempos é sentir-se lagarta e poder escolher ser traça. Traça-fénix.
      Ouve escola, quero que sejas um casulo colectivo. Não há nada mais natural do que sentir um braço e um pé na escuridão, confiar no toque do outro, na partilha do espaço de silêncio que vive entre as páginas dos livros que escrevemos com a caneta a verter vontades e sonhos e quereres e células e células de dúvidas. Quem sabe até — perdoem-me todas as lagartas pelo luxo de pensar o seguinte — construir uma visão de uma escola em que criamos um currículo aberto: conversar com a traçabióloga, com a traça-poeta, com a traça-designer, com a traça-cenógrafa, com a traça-arqueóloga, com a traça-hospedeira, com a traça-linguista e finalmente conversar com a traça interior. Imaginá-la, idealizá-la, moldá-la e destruí-la e reconstruí-la uma e outra vez até me sentir satisfeito não com a mudança, o produto final, mas sim com o processo de mudança, aceitar que posso ser traça e continuar em metamorfose. 
     Mas, escola! Ouve, chega de exigir apenas das lagartas. Há traças que vêm à escola comer-nos as folhas e deixar os restos já não tão apetitosos espalhados por tudo o que é canto. A gente come mas é insosso e distrai-nos da metamorfose.
     Ouve, escola, que eu digo-te o que se passa. Há traças que ao fim deum ano de trabalho individual com uma lagarta sobre um solo de piano do Wynton Kelly para apresentar no exame, ainda chegam todas as semanas sem saber qual a porra do solo que lhes fizeste o favor de escolher para tocar no exame! Mas isto não é relevante. O que é relevante é saber que na minha turma de lagartas, a mais capacitada das lagartas não era traça o suficiente e acabou a trabalhar num hotel para traças suíças, e outra fechou-se em casa sem aviso prévio, janelas e piano sempre fechados porque a noite virou dia e o sol lembra que amanhã poderá ser ainda pior e a música ainda lá estará a lembrar que outrora foi doce fruto.
     Uma colega lagarta perguntou-me se seria pedir muito que esta semana fosse para descansar, ler e caminhar com as patinhas ao sol. Talvez aprender a fazer uma salada apetitosa e trocar os lençóis. Cansada de fingir ser traça a minha colega confessou que lá no fundo quer ser traça e quer corresponder como esperado mas o reflexo no espelho não corresponde ao que vive no imaginário: o casulo abandonado com orgulho, feliz pelo processo de metamorfose, a metamorfose em si alcançada pela criatividade e individualidade.
     Enfim, escola, a maioria das lagartas não sabe nada. E a maioria das traças finge saber. Não te compreendo, escola, mas acho que ainda és lagarta e o casamento da prima Lena é deste sábado a oito. Toma lá dez euros e vai comprar uma camisola de lã daquelas natalícias com renas e flocos de neve para pareceres mais amigável. Toma mais cinco e passa na padaria, compra um chocolate e traz uma dúzia de bijous. Não te esqueças de deixar os sapatos na entrada antes de ires para o quarto e lava as mãos antes de desceres para o jantar, eu aviso quando estiver pronto. Vou fazer o teu preferido: traça-fénix.

Ricardo M. Vieira

a propósito de terminar uma licenciatura

(Jul 2019)

Published by Ricardo M. Vieira

Writer Composer Performer Sound Artist

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