Geração Impossível

(2018. in APNEIA n.4)

Sei exactamente onde e quando estou.
A individualização pressupõe a singularidade.
Dominante alterado. Indivíduo assume-se plural.
(des)Desindividualização.

Somos resultado de uma experiência, ora
Se assim não fosse, que seríamos?
“No meu tempo...” No meu tempo o tempo já não aceita possessivos.
E isto não é um pedido de ajuda. E isto não é uma provocação.
E isto não é um grito. E isto nem sequer é um grito.
E isto nem sequer tem de ser a Arte-Messias.
Isto é um possessivo bem empregue:

Meu, nem vais acreditar!
Há dias, não hoje, hoje não, mas há
Dias em que acordamos só para chorar
E “rir da miséria dos outros. Pobres
Coitados, que não têm as oportunidades
Que conseguimos mal nascemos.” Não.
Não. Minto. Não, nós não mentimos. Não.
Não fomos feitos para isso. Não dá para mentir pelo ​chat​.

Há quem diga, não hoje, hoje não, mas há
Quem diga que somos a parte e o todo do
Sistema, não o Solar, que está prestes a destruir o calhau.
Uma árvore moribunda pôs-nos neste calhau.
O Terceiro.
Há filmes sobre essa merda. É só pagar para ver.
Não? Livros então. Não tens tempo para ler?
Jogos? Não, é perda de tempo, claro.
Netflix? Insta? Snap? Twitch? “As coisas que estes gajos inventam.”
Mas cultura é ir à Sinfónica:
A redundância dos mortos em ouvidos moucos.

Ó possuidores do tempo,
Kafka é o novo Che, metamorfoseámo-nos
Bestas exóticas com nomes igualmente exóticos:
Geração Y, Geração Z,
Geração do Milénio. Vê?

Os Sociólogos e os Doutores atiram as cartolas ao ar!, entram no bar mais [próximo
E enfiam a nossa vida, ​a bebida digo,​ pelas goelas abaixo.
Depois vão p’rá casa de banho vomitar ​trends​ sociológicas.
Sem sequer lavar as mãos.

Que dizes, o futuro é hoje? Ou vou ter de
Entrar na faculdade, perder a vida em pdf’s e diapositivos,
Descobrir que queria estar a fazer exactamente aquilo que não faço.
“Putos mimados. Não têm vontade p’ra nada!” diz o Doutor sobre estes [putos. 
Perdemos os nossos nomes, putos. Nem sei se ainda somos números, putos.
Como as coisas andam, putos,
Já devemos estar todos na ​cloud, à​ espera que nos descarreguem para o disco rígido 
Em que nos querem meter.
Somos resultado de uma experiência, ora
Se assim não fosse, que seríamos? Alguém?

Mas isto não é sobre nós. Isto não pode ser sobre nós.
Isto não é para ser etiquetado. Não. Não pode.
Não há clubismos na poesia.
Olhamos para a esquerda e para a direita antes de atravessar,
Inclinamos um pouco à esquerda e mesmo assim não há clubismos. Atravessamos de um lado ao outro da ambiguidade.
Da ambiguidade:
resume-se a um arroba.
A ambiguidade é a nova liberdade: @(s) menin@(s) dançam?

(des)Desindividualização.

E isto é um grito:
A razão de ser disto é simples. Aquele momento único
Em que a nossa mãe nos pega ao colo. Aquele momento único
Em que fazemos o primeiro amigo. Aquele momento único
Em que o chão é lava. Aquele momento único
Em que festejamos o impossível.

Published by Ricardo M. Vieira

Writer Composer Performer Sound Artist

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s